quarta-feira, 22 de abril de 2026

Subsolo

 Só o instante, a ternura aberta no mundo deserto. O carinho quente da troca de almas, eterna lembrança do amor ideal. Não posso contar o que mexe comigo, o amor é aqui, agora e para sempre. O amor para sempre, como um arremedo de cristal. A certeza de encontrar ninho e segurança, um mundo tão agressivo e cruel. O afago da ternura presente, atenciosa, que me vê. Quero ser vista, frágil, incerta, visceral. Os olhos que me habitam e me cobrem de orgulho. Orgulho próspero: a vida se transformando a partir de um beijo. Janelas de oportunidades? O que esconde o não-jogar, o discurso direto, o amor demais? O que esconde a certeza límpida, a descrição detalhada da essência? Algo me escapa ou me saboto? Estou vulnerável ao amor e a ser amada e me espanto: qual o ponto de partida? O meio de escape do que já está acontecendo. O meio da vida, a infância. Tenho espanto, o grito e a fábula da existência. Meu abraço engole a vida e nela me distraio por tempo demais. Procuro a ocupação que justifique ser humana no momento atual. Nem sempre as palavras se encaixam, mas sempre são ideais, os vãos que elas deixam permitem que eu escorregue para fora da razão. Moro nos vãos da palavra, nos vales-vácuos, onde nem o sentido ousa ditar regras. Não há regras na minha loucura. Antes, haveria uma força gravitacional que me mantém embaixo, a todo custo.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Carga

 Como a magia das horas, me descortino em momentos atávicos, momentos lúcidos, momentos calmos e chãos.

É só o medo, que um explosivo acaso acabe com tudo. Um medo é só um medo, tão relevante que é maciço, um medo-peso. Pairando no ar e me envolvendo, um medo-ar. Quero o silêncio, quero o descanso. O mundo me exige demais e eu fujo. Medo, saudade. Saudade de algo. No fim, quero a liberdade de existir sem sobrecarga. De ser sem máscaras e sem medo. A tinta da existência espalhada nas paredes. A calma, a falta de tudo. Preciso do turbilhão do mundo no silêncio de uma escuta. Quero a escuta sem traumas, o fio que tece o inexorável. O afável. Quero a suavidade de uma bolha de ar flutuando, as nuvens como envoltório primordial. Quero a origem, o mito e a resolução natural. O mundo, o que ele me traz. A linha que me faz organizar algo chamado alma. O perigo suave, a suavidade pura. Quero o apego sem desespero, a justiça de um abraço bem dado. Quero o tempo aberto à sua dissolução, quero a absolvição dos sonhos. A fuga, a inteireza do fardo, a prece. O silêncio, enfim.

domingo, 8 de março de 2026

Falatório

As pessoas falam alto

Elas gostam de falar

Quando se ouvem e acham que são algo

Seguem falando, falando

Quase sem parar


Às vezes as ouço falando

Tenho vontade de avisar

"Calma, ninguém está te ouvindo"

Mas me pego perguntando:

"O que mais você quer falar?"


Assim sigo escutando

E falando também, afinal




O perigo que corro 

É passar pelos mesmos caminhos

Incinerar os mesmos escombros

Admirar as mesmas paisagens

Nada em mim é novo já que sou natureza

Sou antiga como estas folhas caídas

O contorno da via inevitável, não há saída deste pavilhão de espelhos
O que procuro não tem forma, é invisível e está em movimento

O silêncio é uma pedra atirada
Contra uma janela aberta



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Espelhos II

Antes de mergulhar pergunto: onde posso estar se não aqui?
Preciso desocupar os buracos da alma, acabar com os vãos preenchidos de muita coisa nenhuma
Se estou sólida é porque respiro
Me encaixo onde não existo mas penso - serei culpada por mais uma queda anunciada? 

Lidar com a angústia nunca foi fácil 
Nunca será óbvio saber onde pisar nessa trilha escura e densa
E isso pode ser perfeito
Afinal, ainda sou uma experiência - em curso, imagino que posso tramar algo contra meus pequenos dramas, uma invenção, uma eternidade frágil, a suprema superação do descontrole...tudo isso é muito maior e eu vou diminuindo
Bem minúscula tento alcançar os degraus mais altos da escada mas estou sempre caindo
Pra longe, sempre o desgoverno, o desencontro, o erro
Dizem que o erro é a chave da criação
Não sei quanto a chaves, enganos, descobertas
Sei que tudo se cria a partir do contrário das ideias mais óbvias
Porque, no fim, o universo é criativo e improvável, indomável certeza do engano

Às vezes, de relance, me olho e resgato algo de familiar - já estive aqui.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Covil

Sem medo, deixo a serpente seguir sua natureza, se enrolar no meu pescoço, me olhar de frente antes do bote
Ela não morde, avança lenta e me arrasta para dentro de seu mundo, agora sou cobra também e vejo
Por baixo das folhas o cheiro da água sutil transpiração, minha essência, também dela, lambemos o chão
Úmidas, ela e eu água folhas, gingamos conforme o movimento da terra, o mundo girando ao pulso dos nossos abdomens arrastados, corrente elétrica força vital - faça-se o veneno!
Mas que contundente. Uma cobra ter venenos quando eu nem sequer teria coragem de chegar perto de uma de verdade, sou uma farsa. Uma mentira mas seguimos em frente:
Serpente, nós, prensamos o tempo floresta adentro e no mato somos gente - coisa que vacila e mente, prega peças a si mesma e ri (!) ELA RI não de nervoso mas de substância, sua própria saliva arde e nos beijamos pois quem beija não atenta contra nada e rimos também pois somos apenas corpo cabeça e sangue-frio uma espécie de bênção
A cobra-serpente de duas cabeças onde sou nenhuma e falo por nós
O que ela diz me compreende
E quando termina me engole.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Auto-criptografias

No surdo jogo da vida eu me aprofundo
Buscando tocar a superfície da matéria-espaço-sonho
Eu sonho acordada e vivo dormindo
Talvez isso queira dizer estar e não estar
Pois já estou aqui e lá, sempre
Mas não me sinto presa
Me sinto diretamente absorvida pelo infinito
Dele sou parte e observante
Quero jogar todas as fases
Conhecer todos os lugares à medida em que os crio
Eles só existem porque eu olho
No mais, os outros têm as suas experiências
E cada um é seu próprio ponto de vista
De onde esse jogo é controlado ou não
Nem importa
Me importa assumir o vazio e lidar com a neura
Me importa viver e olhar os outros, vivendo
Quando eu olho eles existem e são eu
Já não têm diferença
E ainda confio, uma estranha dura confiança
De onde se abrem caminhos, trilhas
E não controlo mais a perda, o ganho
Que de mim saem todos os fios
Me sinto só
Me sinto doce
Me sinto nó
Uma estranha estranha confiança
Será que virei fé?
Será que virei pó?
Sou peso, ainda, e mais ainda
Teia onde passeia o dia
Um dia que é tão curto
Pra uma noite tão infinita.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Claustrofobia

O espaço tão estreito entre um beijo e a dúvida                                                                                

Cair no abismo quer dizer entrar, abro a porta e carrego as nossas sombras sobrepostas

Vou pra não voltar

Pois nunca seria a mesma, escolhi as palavras e todas elas me constroem

Um prédio enorme, estou rodeada de invenções

Símbolos mágicos, normalidades tão desconcertantes que já preciso aceitar

O perigo mora em mim, mora em nós

E aqui só me atrevo ao que não conheço

Por isso permito

Que de mim jorrem as palavras-jato ao primeiro sinal de calma e ignorância

Assim me entendo e dissolvo, a psicografia do que nunca sei

Só depois de gastar meu infinito

Encerro o espaço, tranco a porta e engulo a chave.