sábado, 16 de maio de 2026

Escola

Um sonho-desejo
A recordação de algo
O lar, a reverência
Morar e não se sentir dono

Novos habitantes, não conhecem a história por trás deste lugar
Ainda assim os compreendo
Sou a guardiã da memória
E no sonho escrevo
Pra saber, acordada, que meu sonho era voltar àquele lugar e ali morar

Seus corredores, túneis, passagens secretas e cheias de histórias
A sensação mastigável de que ali passei muitas horas

Memórias

A sala secreta aonde só eu tenho medo de entrar
Um tesouro à vista, relíquias triviais passado-futuristas
Uma vitrola que soa papéis
Um catálogo de registros antigos
O choque com objetos novos-velhos: plástico, cores, brinquedos

O passado dá a impressão de ter sido sépia, vermelho fosco, cinza, desgaste
O novo-velho que também vai perdendo a cor
A minha condescendência soberba, um mestre que sou
Já estive aqui há muitos anos
Este ático já foi muito diferente, até no formato
Aqui cantei, soltei a voz
Fui livre e fui eu mesma
Amei e fui admirada
Mas aqui não moro nem nunca morei
Estas lembranças não existem
Esta pessoa nunca existiu
Quem a criou fui eu, com toda minha arte

Logo, o lugar estará cheio
Jovens, dançando e existindo, questionando tudo
Eu só queria dar a volta
E reverenciar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Subsolo

 Só o instante, a ternura aberta no mundo deserto. O carinho quente da troca de almas, eterna lembrança do amor ideal. Não posso contar o que mexe comigo, o amor é aqui, agora e para sempre. O amor para sempre, como um arremedo de cristal. A certeza de encontrar ninho e segurança, um mundo tão agressivo e cruel. O afago da ternura presente, atenciosa, que me vê. Quero ser vista, frágil, incerta, visceral. Os olhos que me habitam e me cobrem de orgulho. Orgulho próspero: a vida se transformando a partir de um beijo. Janelas de oportunidades? O que esconde o não-jogar, o discurso direto, o amor demais? O que esconde a certeza límpida, a descrição detalhada da essência? Algo me escapa ou me saboto? Estou vulnerável ao amor e a ser amada e me espanto: qual o ponto de partida? O meio de escape do que já está acontecendo. O meio da vida, a infância. Tenho espanto, o grito e a fábula da existência. Meu abraço engole a vida e nela me distraio por tempo demais. Procuro a ocupação que justifique ser humana no momento atual. Nem sempre as palavras se encaixam, mas sempre são ideais, os vãos que elas deixam permitem que eu escorregue para fora da razão. Moro nos vãos da palavra, nos vales-vácuos, onde nem o sentido ousa ditar regras. Não há regras na minha loucura. Antes, haveria uma força gravitacional que me mantém embaixo, a todo custo.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Carga

 Como a magia das horas, me descortino em momentos atávicos, momentos lúcidos, momentos calmos e chãos.

É só o medo, que um explosivo acaso acabe com tudo. Um medo é só um medo, tão relevante que é maciço, um medo-peso. Pairando no ar e me envolvendo, um medo-ar. Quero o silêncio, quero o descanso. O mundo me exige demais e eu fujo. Medo, saudade. Saudade de algo. No fim, quero a liberdade de existir sem sobrecarga. De ser sem máscaras e sem medo. A tinta da existência espalhada nas paredes. A calma, a falta de tudo. Preciso do turbilhão do mundo no silêncio de uma escuta. Quero a escuta sem traumas, o fio que tece o inexorável. O afável. Quero a suavidade de uma bolha de ar flutuando, as nuvens como envoltório primordial. Quero a origem, o mito e a resolução natural. O mundo, o que ele me traz. A linha que me faz organizar algo chamado alma. O perigo suave, a suavidade pura. Quero o apego sem desespero, a justiça de um abraço bem dado. Quero o tempo aberto à sua dissolução, quero a absolvição dos sonhos. A fuga, a inteireza do fardo, a prece. O silêncio, enfim.

domingo, 8 de março de 2026

Falatório

As pessoas falam alto

Elas gostam de falar

Quando se ouvem e acham que são algo

Seguem falando, falando

Quase sem parar


Às vezes as ouço falando

Tenho vontade de avisar

"Calma, ninguém está te ouvindo"

Mas me pego perguntando:

"O que mais você quer falar?"


Assim sigo escutando

E falando também, afinal




O perigo que corro 

É passar pelos mesmos caminhos

Incinerar os mesmos escombros

Admirar as mesmas paisagens

Nada em mim é novo já que sou natureza

Sou antiga como estas folhas caídas

O contorno da via inevitável, não há saída deste pavilhão de espelhos
O que procuro não tem forma, é invisível e está em movimento

O silêncio é uma pedra atirada
Contra uma janela aberta



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Espelhos II

Antes de mergulhar pergunto: onde posso estar se não aqui?
Preciso desocupar os buracos da alma, acabar com os vãos preenchidos de muita coisa nenhuma
Se estou sólida é porque respiro
Me encaixo onde não existo mas penso - serei culpada por mais uma queda anunciada? 

Lidar com a angústia nunca foi fácil 
Nunca será óbvio saber onde pisar nessa trilha escura e densa
E isso pode ser perfeito
Afinal, ainda sou uma experiência - em curso, imagino que posso tramar algo contra meus pequenos dramas, uma invenção, uma eternidade frágil, a suprema superação do descontrole...tudo isso é muito maior e eu vou diminuindo
Bem minúscula tento alcançar os degraus mais altos da escada mas estou sempre caindo
Pra longe, sempre o desgoverno, o desencontro, o erro
Dizem que o erro é a chave da criação
Não sei quanto a chaves, enganos, descobertas
Sei que tudo se cria a partir do contrário das ideias mais óbvias
Porque, no fim, o universo é criativo e improvável, indomável certeza do engano

Às vezes, de relance, me olho e resgato algo de familiar - já estive aqui.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Covil

Sem medo, deixo a serpente seguir sua natureza, se enrolar no meu pescoço, me olhar de frente antes do bote
Ela não morde, avança lenta e me arrasta para dentro de seu mundo, agora sou cobra também e vejo
Por baixo das folhas o cheiro da água sutil transpiração, minha essência, também dela, lambemos o chão
Úmidas, ela e eu água folhas, gingamos conforme o movimento da terra, o mundo girando ao pulso dos nossos abdomens arrastados, corrente elétrica força vital - faça-se o veneno!
Mas que contundente. Uma cobra ter venenos quando eu nem sequer teria coragem de chegar perto de uma de verdade, sou uma farsa. Uma mentira mas seguimos em frente:
Serpente, nós, prensamos o tempo floresta adentro e no mato somos gente - coisa que vacila e mente, prega peças a si mesma e ri (!) ELA RI não de nervoso mas de substância, sua própria saliva arde e nos beijamos pois quem beija não atenta contra nada e rimos também pois somos apenas corpo cabeça e sangue-frio uma espécie de bênção
A cobra-serpente de duas cabeças onde sou nenhuma e falo por nós
O que ela diz me compreende
E quando termina me engole.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Auto-criptografias

No surdo jogo da vida eu me aprofundo
Buscando tocar a superfície da matéria-espaço-sonho
Eu sonho acordada e vivo dormindo
Talvez isso queira dizer estar e não estar
Pois já estou aqui e lá, sempre
Mas não me sinto presa
Me sinto diretamente absorvida pelo infinito
Dele sou parte e observante
Quero jogar todas as fases
Conhecer todos os lugares à medida em que os crio
Eles só existem porque eu olho
No mais, os outros têm as suas experiências
E cada um é seu próprio ponto de vista
De onde esse jogo é controlado ou não
Nem importa
Me importa assumir o vazio e lidar com a neura
Me importa viver e olhar os outros, vivendo
Quando eu olho eles existem e são eu
Já não têm diferença
E ainda confio, uma estranha dura confiança
De onde se abrem caminhos, trilhas
E não controlo mais a perda, o ganho
Que de mim saem todos os fios
Me sinto só
Me sinto doce
Me sinto nó
Uma estranha estranha confiança
Será que virei fé?
Será que virei pó?
Sou peso, ainda, e mais ainda
Teia onde passeia o dia
Um dia que é tão curto
Pra uma noite tão infinita.