quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Claustrofobia

O espaço tão estreito entre um beijo e a dúvida                                                                                

Cair no abismo quer dizer entrar, abro a porta e carrego as nossas sombras sobrepostas

Vou pra não voltar

Pois nunca seria a mesma, escolhi as palavras e todas elas me constroem

Um prédio enorme, estou rodeada de invenções

Símbolos mágicos, normalidades tão desconcertantes que já preciso aceitar

O perigo mora em mim, mora em nós

E aqui só me atrevo ao que não conheço

Por isso permito

Que de mim jorrem as palavras-jato ao primeiro sinal de calma e ignorância

Assim me entendo e dissolvo, a psicografia do que nunca sei

Só depois de gastar meu infinito

Encerro o espaço, tranco a porta e engulo a chave.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Construção

Extremos de locais desconhecidos

Um, em sua forma quase perfeita não fosse a falta de função

Outro, um depositário de vidas e objetos, pulsante indiscrição

Dois lugares de um só, meu inconsciente-prédio-aeroporto aonde me deito

Velas gigantes, camas expostas

Pessoas incógnitas que se tornam indispensáveis

Ali as histórias se mesclam, ali sou várias e sou nenhuma

Todas elas me cabem e são familiares, eu mesma me sou familiar

É claro que eu observo a loucura, ela mora nesse edifício e constrói seus andares

A vida esparsa e os entulhos, nada disso me incomoda

Ainda estou atrás e à espera

Da mudança definitiva





sábado, 17 de janeiro de 2026

Ônibus

A história continuada dentro do sonho, virando realidade, um sonho que ri da minha cara
Tenho a sensação de que já estive aqui
Com a agonia pequena ou grande, é tudo familiar demais
Eu não queria que fosse, eu queria no fundo não saber de tudo
Não conhecer essa parede, esse balanço desgovernado, essa falta de amanhecimento
Uma noite eterna, uma prisão
Olhando assim parece que está cada vez mais perto
O mundo vai se fundir em sono e visão
E vou acordar fora da vida dentro de mim

Por isso tenho que olhar de longe, mais longe
Voar distante do que me aprisiona
Ascética, deslocada
Indiferente
O mundo sendo tão ruim e eu fugindo
Planando

Recipiente

A escada a subida a mente distorcida

Espelho que me olha de longe 

Um procurar o centro para achar mais desequilíbrio e movimento

Uma fuga, não quero o óbvio, não quero o certo, não quero a lisura

O que eu quero não cabe no desejo




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Lagarta

Uma nova história, novos personagens

Aqui me encontro no marco zero, coadjuvante e vítima de enganos

Caminhos tortuosos me levam a outros caminhos

De novos encontros, olhos, paciência

Outro dia eu disse sem querer que amar é paciência

E pode ser

Mas sempre digo isso e outras coisas sem querer

Porque acaba que não sei de nada, mesmo

E se digo é só pra me assustar com o que minha cabeça pensa

Meio que me assusto, meio que admiro

Assusto os outros, um pouco

Eles também me admiram

Mas não fazem ideia da simplicidade que me leva ao caos

Sou rápida mas meu sentir leva tempo

Ou o perceber do sentir, ou a noção de espaço ao ocupar outro lugar numa cabeça que não sou eu

Eu dentro de outra cabeça mais rápido do que você pode ler

Mas lento, ainda

Pois volto ao silêncio como quem muda de vontade

Eu queria falar, agora não quero

Eu queria te ver, agora espero

E assim repito diferente o que já disse nunca

Acabo comigo mesma dentro da tua cabeça sem deixar vestígios

Ou, pelo menos, acho

Lembra que sou bem lenta



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Ponto:

Uma distância
Pode não ser longe
Pode não ser fim
Mas sim movimento

O que ela pode só se mede em passos curtos
Um dia de cada vez 
A um tempo só, todos juntos
Até chegar ao fundo da calma
Onde se acha o mesmo ponto
De onde nunca se sai pois sempre dentro
Sempre só
Sempre invento
E o distante ensina ao tempo
Que o que importa é só o momento

Película

O céu mudo
Parafraseando o encontro de olhares perdidos
Eu olho daqui
Ele me olha de lá
E não sabemos se o que se vê está aqui ou através
Se a paisagem é tempo
Se o caminho é reverso
Se o avesso da visão é o próprio mundo

O céu não é um filme
Mas ele pode me contar



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Dizem que ela voltou 

De onde nunca deveria ter saído

Cântico para olhar de longe

Encostada à parede
Atrás de onde mil mundos esperam pra me contar um segredo
(somos você inteira, não tente se enganar)
Quem espera, na verdade, sou eu
Espero pra beber a tua alma como um elixir, espero pra me nutrir dos teus vazios insólitos
Vou esperar sempre, enquanto olho o fim do fim chegando perto
A espera não pode ser mais fácil
A vida é meu oásis e eu estou tranquila
Em paz, alcancei minha meta
Olhar você de longe pra não me embriagar do teu espanto
Ouvir tua voz baixinho pra não acordar demais o meu rancor
Sentir só o rastro de um perfume imaginário, o mais imaginário, o aroma da invenção
Com o corpo inteiro tocado pelo muro me despeço
Da função de agonizar por nada que eu já não soubesse, de tudo que não me coubesse
Eu sei me ler.

Com a pinça do meu olho recolho os fragmentos do que não sei expressar e grito 
Eu entendo, eu entendo
Cada vez menos, cada dia mais bonito.








Eu quero o gozo profundo de respirar teu mundo

E voltar


Não saber já é mais que o suficiente

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Pêndulo

Contemplar o descontrole. Para simplesmente me lançar ao abismo desconhecido do que sou. A vida tem me pedido calma, e a cada dia entendo que isso significa mais e mais estar fora do controle. Longe do apego que ofusca a visão nítida do que espero ser. O apego faz me agarrar às coisas pesadas, aos dramas pequenos, às invenções do espírito. 

Invencionices da mente, maquinarias fantasiosas regadas a expectativas irreais. Ninguém pode me salvar, nem eu mesma. Quanto mais vivo, mais percebo que não sou exatamente deste mundo, mas sim humana ao nível extremo. Não sou do mundo das ideias. Sou feita da terra e do espaço. Meu silêncio é a poesia das estrelas. Estou pendurada à existência por um fio que contém tudo, todas as possibilidades do ser e do não ser. O engano, a mentira e a inocência são pontas de uma mesma lança, meu vazio maior é não caber neste corpo. Sou feita de pó. E tudo já foi dito. Me confundo, assim lembro que sinto como grandezas desproporcionais. O meu tempo é. Não passa, porque sigo aqui.