segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Espelhos II

Antes de mergulhar pergunto: onde posso estar se não aqui?
Preciso desocupar os buracos da alma, acabar com os vãos preenchidos de muita coisa nenhuma
Se estou sólida é porque respiro
Me encaixo onde não existo mas penso - serei culpada por mais uma queda anunciada? 

Lidar com a angústia nunca foi fácil 
Nunca será óbvio saber onde pisar nessa trilha escura e densa
E isso pode ser perfeito
Afinal, ainda sou uma experiência - em curso, imagino que posso tramar algo contra meus pequenos dramas, uma invenção, uma eternidade frágil, a suprema superação do descontrole...tudo isso é muito maior e eu vou diminuindo
Bem minúscula tento alcançar os degraus mais altos da escada mas estou sempre caindo
Pra longe, sempre o desgoverno, o desencontro, o erro
Dizem que o erro é a chave da criação
Não sei quanto a chaves, enganos, descobertas
Sei que tudo se cria a partir do contrário das ideias mais óbvias
Porque, no fim, o universo é criativo e improvável, indomável certeza do engano

Às vezes, de relance, me olho e resgato algo de familiar - já estive aqui.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Covil

Sem medo, deixo a serpente seguir sua natureza, se enrolar no meu pescoço, me olhar de frente antes do bote
Ela não morde, avança lenta e me arrasta para dentro de seu mundo, agora sou cobra também e vejo
Por baixo das folhas o cheiro da água sutil transpiração, minha essência, também dela, lambemos o chão
Úmidas, ela e eu água folhas, gingamos conforme o movimento da terra, o mundo girando ao pulso dos nossos abdomens arrastados, corrente elétrica força vital - faça-se o veneno!
Mas que contundente. Uma cobra ter venenos quando eu nem sequer teria coragem de chegar perto de uma de verdade, sou uma farsa. Uma mentira mas seguimos em frente:
Serpente, nós, prensamos o tempo floresta adentro e no mato somos gente - coisa que vacila e mente, prega peças a si mesma e ri (!) ELA RI não de nervoso mas de substância, sua própria saliva arde e nos beijamos pois quem beija não atenta contra nada e rimos também pois somos apenas corpo cabeça e sangue-frio uma espécie de bênção
A cobra-serpente de duas cabeças onde sou nenhuma e falo por nós
O que ela diz me compreende
E quando termina me engole.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Auto-criptografias

No surdo jogo da vida eu me aprofundo
Buscando tocar a superfície da matéria-espaço-sonho
Eu sonho acordada e vivo dormindo
Talvez isso queira dizer estar e não estar
Pois já estou aqui e lá, sempre
Mas não me sinto presa
Me sinto diretamente absorvida pelo infinito
Dele sou parte e observante
Quero jogar todas as fases
Conhecer todos os lugares à medida em que os crio
Eles só existem porque eu olho
No mais, os outros têm as suas experiências
E cada um é seu próprio ponto de vista
De onde esse jogo é controlado ou não
Nem importa
Me importa assumir o vazio e lidar com a neura
Me importa viver e olhar os outros, vivendo
Quando eu olho eles existem e são eu
Já não têm diferença
E ainda confio, uma estranha dura confiança
De onde se abrem caminhos, trilhas
E não controlo mais a perda, o ganho
Que de mim saem todos os fios
Me sinto só
Me sinto doce
Me sinto nó
Uma estranha estranha confiança
Será que virei fé?
Será que virei pó?
Sou peso, ainda, e mais ainda
Teia onde passeia o dia
Um dia que é tão curto
Pra uma noite tão infinita.