sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Covil

Sem medo, deixo a serpente seguir sua natureza, se enrolar no meu pescoço, me olhar de frente antes do bote
Ela não morde, avança lenta e me arrasta para dentro de seu mundo, agora sou cobra também e vejo
Por baixo das folhas o cheiro da água sutil transpiração, minha essência, também dela, lambemos o chão
Úmidas, ela e eu água folhas, gingamos conforme o movimento da terra, o mundo girando ao pulso dos nossos abdomens arrastados, corrente elétrica força vital - faça-se o veneno!
Mas que contundente. Uma cobra ter venenos quando eu nem sequer teria coragem de chegar perto de uma de verdade, sou uma farsa. Uma mentira mas seguimos em frente:
Serpente, nós, prensamos o tempo floresta adentro e no mato somos gente - coisa que vacila e mente, prega peças a si mesma e ri (!) ELA RI não de nervoso mas de substância, sua própria saliva arde e nos beijamos pois quem beija não atenta contra nada e rimos também pois somos apenas corpo cabeça e sangue-frio uma espécie de bênção
A cobra-serpente de duas cabeças onde sou nenhuma e falo por nós
O que ela diz me compreende
E quando termina me engole.


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